sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Capítulo 8 - Espionagem



((Lawliet))

"O palco de nossa eterna batalha estava montado, pronto para o espetáculo."

"Eu sei exatamente o que você planeja, Kira."

Um leve sorriso formou-se em meus lábios enquanto observava Light Yagami seguindo a bela garota de cabelos fosforescentes.

Fiquei desapontado. Achei que meu arqui-inimigo fosse um pouquinho mais criativo. Mas assim como imaginei, eu estava um passo à frente dele. Sempre estive.

Talvez deva voltar um pouquinho no tempo; as coisas aconteceram mais rapidamente do que eu havia previsto...

(...)

Minha primeira linha de raciocínio foi questionar: e fosse Light, qual seria o primeiro lugar que iria ao retornar à Terra? A resposta veio tão fácil quanto à respiração que surgia de meus pulmões por mais que não precisasse dela: Kanto.

Sim, Kanto. Deveria levar em consideração que foi lá onde tudo deu início. Será que Yagami pensaria o mesmo?

Talvez.

Ao chegar à cidade, procurei-o a pé; se voasse, algo poderia passar despercebido a mim. E então, em meio aos passantes apressados, veículos barulhentos e conversas sem sentido, consegui distingui-lo dentre o mar de gente, de braços cruzados sobre o tórax delineado, encostado em uma parede ao lado de uma vitrine qualquer. Olhar atento. Como se tivesse percebido minha presença, resolveu caminhar um pouco mais, indo em direção à sua antiga escola.

Saudade dos tempos de juventude? Que bonito...

Apesar de todas as diferenças no físico de Light que, mesmo não sendo muitas, eu conseguia notar, sua arrogância ele ainda não havia perdido. Estava claro em seus olhos, que passeavam pelo cenário à sua frente, como se fosse uma criatura à parte daquela realidade. Mas no fim das contas, era isso o que ele era. Assim como eu.

Ele olhava cada pessoa que passava ao seu lado, minuciosamente. O que havia com Yagami, afinal?

Minhas suposições haviam me dito que ele viria a Terra para tentar recomeçar seus julgamentos, mas então porque ele estava completamente parado, resignando-se ao observar a multidão?

Parecia que procurava algo...

Mas o que era esse algo, que fazia Yagami aposentar temporariamente sua subjugação?

Não. Ele não faria isso. Talvez esse algo fosse uma parte importante para ele continuar de onde parou.

Sua expressão se entediou. Foi então que, sem qualquer hesitação, seus olhos se encheram com um brilho perverso, e seu sorriso foi igualmente estupendo.

Ele não estava procurando algo, e sim alguém.

Só poderia deduzir que, sendo assim tão importante para ele, esse alguém seria um portador... Fazia sentido! Talvez, Light não pudesse escrever sozinho os nomes no caderno, por um motivo ainda desconhecido, tornando-se impossível matar alguém por enquanto!

Claro, isso tudo ainda eram suposições. Mas eu tinha 63% de certeza de que elas estavam corretas.

Light andou pela rua, a alguns metros de mim. Eu o segui escondido pelo resto do dia.

E então, lá estava eu, acompanhando Light e a garota de seus olhos pela calçada, como se ela fosse algum pertence precioso. Sua assassina particular talvez?

“87% agora, Kira”.

(...)

Era estranho ter que me esconder no Mundo Humano, porque há algum tempo atrás não havia necessidade alguma de fazê-lo. Só que não podia correr o risco de ser notado; ainda não era o momento certo.

O silêncio pairava pelo espaço, ansioso para ir embora. Eu estava parado numa sacada com formato meia-lua, de frente ao majestoso quarto da garota ruiva. Uma porta dupla de vidro ligava os dois ambientes, e era nela que eu encostara meu rosto, tentando ver – entre o minúsculo espaço que a cortina ampla permitia – os dois.

Ansiava pela resposta dela, tanto quando Light.

– Eu aceito. Escrevo os nomes pra você. – foi o que a voz aveludada disse.

Fiquei triste por ela. Seria apenas mais uma garota enganada por ele...

Através da brecha que pendia da cortina, o vi estendendo o caderno a ela; depois de certa hesitação, a garota acariciou a capa negra, sentando-se em sua cama. Light sentou-se ao seu lado, colocando uma mão sobre as dela.

– Tomou a decisão certa, Yaoshii. Eu prometo, você não irá se arrepender.

Decididamente, pela expressão da jovem, ela não sabia dizer ao certo se Yagami estava correto, mas mesmo assim não contrapôs.

– Quando as mortes recomeçarem – ela decidiu falar -, será como da outra vez, não é mesmo? O detetive L vai recomeçar as investigações e chegará até mim. E... eu vou morrer.

A menção de meu título deixou-me um pouco surpreso. Então ela havia acompanhado o Caso. Colei-me ainda mais ao vidro frio, tentando ouvir melhor.

Ouvi o riso gutural de Light Yagami.

– L está morto!

Minha mão direita encostada no vidro fechou-se em punho.

– Morto? – Yaoshii surpreendeu-se. – Mas... como? Então quem foi que...

– Near. Um jovenzinho irritante, sucessor de L. Quando o original morreu, a notícia de sua morte não foi divulgada a ninguém que não fosse próximo a ele. Então, podemos dizer que Near é L atualmente, já que é assim que o branquelo se denomina.

– É... Light. Você morreu, mas mesmo assim, está aqui, não está? Nada atrapalharia L de retornar. – a garota empertigou-se.

– Kaori, L não está aqui. – ele disse, e um pequeno sorriso escapou de meus lábios. – De fato, ambos morremos, mas tivemos destinos absolutamente diferentes. Eu fiquei consciente, fui parar no Mundo Shinigami e recebi a proposta de me tornar um... mesmo com algumas desvantagens. É por isso que estou aqui. Não posso escrever os nomes no Death Note porque não sou um shinigami comum, ainda tenho uma parte humana.

“Bingo”, pensei, e continuei ouvindo o discurso:

– Quanto à L... Tudo o que sobrou dele está mofando em seu túmulo. – pude ouvir a sensação de vitória em sua voz.

Sempre soube que ele era Kira, então pensei que estivesse preparado para suas atitudes frias e egoístas. Mas não. Aquela frase me chocou.

Tive vontade de chutar a inconveniente porta de vidro e adentrar no quarto, me revelando a ele. Seria prazeroso ver o choque da incerteza em seu rosto.

Céus, eu precisava me controlar, ou faria alguma besteira. Respirei fundo, e antes de acabar me precipitando, a razão falou mais alto e saí dali, à procura de algum espaço onde pudesse esperar a noite chegar.

(...)

Kaori estava dormindo e Light, se o conhecia bem, provavelmente estava perdido pela cidade, à procura de distrações.

Eu? Dentro do suntuoso apartamento da garota, mais precisamente na cozinha, assaltando a geladeira.

Não havia nenhum doce, o que me desapontou. Mas uma pequena garrafinha de calda de morango escondida dentre as frutas serviria.

Peguei a garrafa com minhas mãos pálidas e a abri, deliciando-me com o aroma adocicado. E num átimo de segundo...

Espera. Ela me serviria de alguma coisa...

Sorrindo, fui até a mesa retangular no centro do cômodo. Com a calda, escrevi nela em letras exageradamente grandes:

“Você sabia, Light Yagami, que anjos apreciam morangos?”

Satisfeito, bebi o restante da calda até o fim, desejando com toda a vontade do mundo espionar o mais rápido possível o destemido Kira absorvendo meu recado saboroso. E por falar em saboroso, esperava com todo fervor que a garota Yaoshii fizesse umas compras. Como iria ficar por aqui por tempo indeterminado, precisaria de muita glicose. Não que isso fizesse alguma diferença em meu desenvolvimento físico – afinal, eu de fato estava morto – mas faria para meu raciocínio lógico, que seria drasticamente afetado se não obtivesse rapidamente algum tipo de açúcar.

Lembrei-me de uma vez que Matsuda disse a mim: “Se não parar de comer tanta besteira, vai acabar morrendo de diabetes!”. Mal sabia ele que eu faleceria tomando um delicioso sorvete, mas não por essa causa. Muito menos por culpa de seus cafés que, por Deus, eram horríveis.
Como o dia já estava amanhecendo, voltei ao meu esconderijo. Kaori logo, logo estaria acordando e Yagami provavelmente já estava a caminho.

(...)

Quando Light entrou na cozinha e viu minha tão discreta mensagem sobre a mesa, precisei reunir todas as minhas forças para não cair na gargalhada, tamanha era sua cara de espanto.

Kaori entrou no local, sonolenta.

– Yaoshii, alguém entrou no apartamento? – Light questionou, apressadamente. - Ouviu algum ruído estranho? Notou algo fora do...

– Light. – a garota respondeu. – Calma. Respira fundo e diga uma coisa de cada vez.

Ele esperou impaciente.

– Pode repetir, por favor?

“Oi?”

– Entrou. Alguém. No. Apartamento? – Yagami destacou palavra por palavra.

– É... Além de meus pais e meu irmão, que eu saiba, não.

– Então olhe isso – Light respondeu, girando nos calcanhares e apontando para minha obra prima.

Por um instante, Kaori parecia estar refletindo, mas então caiu na gargalhada.

– Relaxa, Light. Sou sonâmbula, sabia? Deve ter sido eu!

Mas ele não relaxou. Começou a caminhar de um lado para o outro, cruzando a cozinha, e depois fixou seu olhar na jovem.


– Eu acho que não. Ei. Fique em silêncio. Estamos sendo observados.

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