terça-feira, 13 de outubro de 2015

Capítulo 4 - Viagem



((Lawliet))

Depois que saí do palácio de mármore, ainda ouvia as orientações de Lumiére em minha cabeça.

No fundo do penhasco haveria um rio com poderosas correntezas; depois de alguns quilômetros, suas águas desaguariam em uma imensa cachoeira. Ao caminhar um pouco mais, notaria as montanhas rochosas que ele havia descrito e, logo depois, um túnel subterrâneo me guiaria a uma área desértica onde, enfim, estaria o portal para o Mundo Shinigami.

A caminhada ia ser longa.

Sem sequer parar para pensar, resolvi poupar tempo: joguei-me do desfiladeiro. A sensação de queda foi ótima; o vento pareceu amortecer meu peso.

Antes de tocar a água, manifestei minhas asas e elas surgiram, impulsionando-me para cima. Sobrevoei seguindo a correnteza.

(...)

Eu queria me agarrar à lógica, sempre fui bom nisso. Mas enquanto voava, minha mente foi dominada por um turbilhão de pensamentos inconstantes, onde a racionalidade e as emoções misturavam-se em completa desordem.

Quando o encontrasse, qual seria minha reação? Será que um sentimento de vingança me possuiria, já que Light permitiu que Rem me matasse? Seria transformado em um ser movido pelo ódio?

Pela primeira vez em minha existência, eu não sabia qual seria meu comportamento diante de tamanha situação. Na realidade, não tinha certeza nem mesmo de que ainda era o Lawliet destemido que fui no mundo humano...

Enquanto me aproximava da cachoeira, mais um pensamento rasgou minha mente: será que eu estava errado, e Light havia se arrependido? Talvez ele tenha enxergado seus erros... Talvez, só talvez, Light não esteja perdido. Talvez eu pudesse salvá-lo... Mas os constantes “talvez” eram tantos que me senti idiota por pensar assim.

No fundo do meu ser, sabia que não havia saída para um assassino como o Kira foi. Tinha que me apegar à realidade, antes que acabasse enlouquecendo. Light Yagami traçou seu destino em sua vida humana; era inevitável. Sempre seria assim.

(...)

Finalmente, a viagem havia terminado. Lá estava eu, de frente ao portal que me faria sair do mundo ao qual pertencia.

Virei-me e observei. Tentei distinguir as formas do suntuoso palácio, ou das montanhas que se tornaram meu refúgio, mas não consegui. Essa poderia ser a última vez que meus pés tocariam o Paraíso, e nem me despedi de Watari...

“Não preciso me despedir. Eu vou voltar”, pensei.

Voltaria mesmo?

Antes que pudesse ter a chance de me arrepender, cruzei o portal.

(...)

A sensação era infernal. Como se cada parte do meu ser estivesse sendo preenchida por fogo. Em meio à insuportável dor, uma pequena parte de mim tinha plena consciência da violenta queda de energia que estava sofrendo. Ela se dissipava, e meu incêndio interior tornava-se ainda mais brutal.

Tentando suportar todas essas variações, me peguei tentando distinguir alguns contornos: já podia notar a imensidão cinzenta que era o Mundo Shinigami. Foi nesse momento que, como um raio, me choquei contra o chão.

(...)

Por vários segundos, fiquei apenas lá. Deitado de lado, olhos fechados e respiração pesada, naquela cratera formada por minha queda e no estado penoso em que me encontrava, sabia exatamente que estaria à mercê de qualquer inimigo que passasse por ali.

Mais por costume que por necessidade, respirei fundo e abri os olhos. Com dificuldade, me levantei do chão; minha visão se embaçou e fiquei tonto.

Caí de joelhos.

Droga. Anjos não sentiam vertigem, então aquele não era um bom sinal. Precisava ser rápido. Com uma boa dose de força de vontade, me ergui novamente e saltei da cratera. E olhei ao redor.

Consegui ver algumas montanhas pontudas, o chão era totalmente coberto de ossos e rochas ásperas por toda parte... Além de minha visão que começava a oscilar, a névoa não permitia que enxergasse coisa alguma. Aquele não era exatamente o mundo que escolheria para passar as férias...

Irracionalmente, comecei a sentir frio. Por instinto, me abracei, mesmo sabendo que tal gesto seria inútil. Por um pequeno instante, rocei minhas mãos na esperança de as aquecer, e notei que elas, mesmo sólidas, estavam frágeis, como se pudessem... desaparecer a qualquer instante.

Era como Lumiére havia me dito: pouco a pouco, parte por parte, célula por célula, eu iria desaparecer. E logo, estaria começando.

(...)

Percebi que não estava sozinho, o calor presente no espaço não era só meu.

Girei-me e, instantaneamente, senti certo desconforto: era como se estivesse frente a frente com um espelho. E onde estava a névoa?

“Então um shinigami pode mudar de forma?”, pensei.

– Vejam só, o anjo detetive veio visitar os condenados. -, comentou com minha voz, dando um leve sorriso.

– Quem é você? – perguntei.

Ele ficou inexpressivo, como se decidisse entre falar ou não e, ao colocar o polegar nos lábios (já havia visto esse movimento antes), respondeu:

– Sou L, assim como você.

Consegui não demonstrar a confusão que senti com aquela afirmação. Quem era ele? Por que diabos estava brincando comigo daquela forma? Eu não tinha tempo. Se demorasse, eu simplesmente evaporaria. Não podia me permitir a brincar de “outro eu”.

– Light. Onde ele está? – perguntei sério.

O outro L foi até uma pedra próxima a mim e sentou-se, de uma maneira que eu também conhecia.

– Qualquer um no seu lugar o odiaria com todas as forças. Afinal, se você não tivesse morrido, o chamado “Caso Kira” teria terminado há anos.

Aproximei-me.

– Mas agora acabou. Ele está morto, não é? Isso que importa. É o pior dos castigos, pelo menos pra ele.

– Tem certeza que acabou? – ele questionou.

Tinha a mínima impressão de que esse outro eu estava com vontade de colaborar, então não hesitei:

– Não. Se minhas suspeitas estiverem corretas, Light tornou-se um shinigami. Sendo assim, ele tem o direito de possuir um caderno. Light vai tentar concluir seus planos iniciais, que foram impedidos. Pelo menos temporariamente.

O outro L sorriu, novamente.

– Lawliet... sempre tão esperto...

– L – corrigi. Apesar de não ter mais importância alguma, eu não me sentia bem com meu verdadeiro nome sendo espalhado por toda parte.

– Então estou certo, não é mesmo? Yagami é um deus da morte agora?

– A morte deixou você bem impaciente.

Acho que ele é quem ficaria impaciente se eu lhe desse um chute na cara. Realmente não podia mais perder tempo com toda aquela enrolação. Sentia-me cada vez mais fraco...

Desviei dele e comecei uma lenta caminhada. Eu queria voar, mas não possuía mais forças. Tudo o que eu queria naquele momento era ficar longe daquela imitação irreal de mim.

– LIGHT! – chamei. Senti-me um idiota gritando para o nada, mas mesmo assim eu tinha que tentar.
– Ele não está mais aqui – disse o outro L. Olhei para ele à espera de mais informações.

– Ele foi para o Mundo Humano. E parecia bastante animado...

Seu sorriso tornou-se maligno.


“Droga”, pensei.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada por ler!

Seja educado
Deixe seu link para que eu possa visitá-lo
Sinta-se livre para compartilhar as postagens, mas dê os devidos créditos

Até a próxima!


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
 renata massa