sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Capítulo 3 - Paraíso

((Lawliet))
Quando o vi sobre a escada coberto por seu próprio sangue, senti pena. Light Yagami fez todas as escolhas erradas e pagou um alto preço por isso. Acredito que no começo de tudo ele possuía certo caráter, mas deixou-se sucumbir ao mal. Era só um rapaz infantil com uma alma maligna. E que não sabia perder.

Ele olhou para mim e em seu olhar cansado um único sentimento permanecia: tristeza. Light, depois de tanto tempo, havia, enfim, aceitado sua derrota.

Mas enquanto observava seu fim, percebi que ele queria me dizer algo. Infelizmente, a morte o levou antes mesmo dele sequer tentar. Em passos lentos me aproximei dele, mesmo sabendo que não pertencia mais a esse mundo. Sentei ao seu lado.

“Poderíamos ter sido amigos”, confessei. “Mas você não quis assim”.

Finalmente, o mundo estava livre do Kira, e fiquei feliz por isso, mesmo sabendo que não foi por mérito meu. Afastei-me de seu corpo inerte e fui em direção à luz.


(...)



Nunca acreditei na idealização de Paraíso criada pelas pessoas: portões de ouro e anjinhos voando entre as nuvens nunca fizeram nenhum sentido para mim. Então, pode-se dizer que após minha morte não fiquei surpreso ao constatar que essa metáfora humana sobre o céu é falsa. Mas se tratando da beleza do lugar em si, elas acertaram numa coisa: era extremamente belo.


O que os humanos chamam de céu não possuía apenas uma cor, mas várias. Turquesa, violeta, dourado... Elas mudavam, intercalavam-se entre si numa eterna dança de aquarela, oferecendo aos meus olhos tonalidades únicas e inimagináveis. E nesses nuances, planetas e galáxias eram visíveis: estrelas brilhantíssimas cortavam o céu multicolorido num incomparável desfile dançante. Tudo aquilo que eu via era como uma pintura viva mergulhada num mar de constelações em sintonia.

Quando cheguei aqui, passava muito tempo deitado na grama dourada, observando as estrelas. Ficava constantemente sozinho, me distanciava de tudo e todos, dando ênfase somente aos meus pensamentos.

Nem mesmo Watari conseguia me alegrar. Segundo ele, havia apenas um único problema em meu desânimo pós vida: eu não aceitava minha morte. O que era uma mentira, porque a aceitei muito bem. O que eu não suportava era a ideia de ter falhado.

É claro que eu estava certo desde o início sobre Light ser Kira, mas isso não mudava o fato de eu estar morto e ele vivo (provavelmente muito feliz por acabar com seu maior empecilho – eu).
O tempo foi passando e agora quem havia morrido era ele. A justiça venceu. E Light Yagami não teria outra escolha senão aceitar a morte, como eu fiz.


(...)


Coloquei as mãos nos bolsos e caminhei. Ao leste, montanhas nevadas sopravam brisas que balançavam a grama esmeralda sob meus pés descalços. Fui em direção a um lago; ajoelhei-me e me curvei, observando meu reflexo na água espelhada.

Os portadores do caderno iam para o Vazio após a morte – havia descoberto isso quando cheguei. Isso significava que Kira não causaria mais problemas. Mas esse pensamento me causava uma sensação estranha. Light não iria desistir assim tão fácil de seu “mundo perfeito”.

– Parece que está refletindo bastante hoje, L – Watari disse, me trazendo de volta à realidade. Sentei-me, colocando a cabeça curvada sobre os joelhos.

– Eu tenho uma informação sobre o fechamento do caso Kira – disse.

Watari sentou-se ao meu lado.

– Light está morto. – completei.

Ele não pareceu demonstrar reação nenhuma.

– Com toda a sinceridade, eu já esperava por isso... – ele olhou para mim. – você o viu morrer?

– Sim. E também me mostrei a ele.

– Você não podia ter feito isso!

– Eu só achei que... ninguém merece ter de morrer sozinho, nem mesmo Light.

Watari olhou fixamente em meus olhos, e suspirou.

– Você se apegou a ele, não é? Por mais que suspeitasse fortemente dele, no fundo, você sempre enxergou o rapaz como seu amigo.

Tentei ignorar suas palavras; não era uma boa hora para melancolia.

Coloquei o polegar nos lábios, e analisei minha própria trajetória. Quando cheguei ali, era um espírito comum; em minhas andanças na Terra eu não passava de um fantasma despercebido. Mas agora, havia me tornado um anjo, um ser naturalmente superior aos humanos e aos espíritos.

Havia evoluído e isso me fazia questionar: será mesmo que Light não conseguiria fazer o mesmo? Era óbvio que ele não se tornaria um anjo; provavelmente estaria mais perto de ser um demônio... um shinigami, talvez.

Parei, perplexo. Um shinigami...

Levantei-me bruscamente.

– Onde vai? – Watari questionou.

– Ao mundo Shinigami. Preciso ter uma conversa particular com Light Yagami.


(...)



Odiava ter de pedir permissão para fazer alguma coisa, mas realmente não tinha escolha. Sem a autorização de um Arcanjo, eu jamais poderia ir ao Mundo Shinigami.


Era por isso que eu estava de frente àquele palácio suntuoso no alto de um desfiladeiro. Decepcionado, percebi que não havia ninguém por lá. O que deveria fazer? Não era como se existisse uma campainha... Ou existia?

Ergui a mão resolvendo bater, e inesperadamente a enorme porta se abriu, antes mesmo que eu a tocasse. Bacana. As portas se abriam sozinhas...

Um homem corpulento e com vestes claras apareceu, e me encarou.

– O que faz aqui?

– Vim tratar de assuntos importantes com Lumiére – respondi simplesmente.

Lumiére era o Arcanjo responsável pelas terras do norte do Paraíso, e também um dos poucos amigos que havia conquistado ali.

– Apenas Arcanjos podem entrar – o homem disse bruscamente.

– Então porque você está aí?

Automaticamente, notei que não devia ter dito aquilo, percebi com desânimo.

– Se quer realmente saber, eu trabalho aqui. Mantenho a área protegida de invasores como você! - ele alterou a voz, mas foi surpreendido por outra mais potente:

– O que está havendo?

O dono da voz era um rapaz com cachos louro mel e olhos dourados. Suas claras vestimentas assemelhavam-se as do século XIX.

– Lumiére-Kun! – falei.

O guarda do castelo olhou perplexo para mim, e depois para Lumiére.

– Vocês se conhecem?

– Claro. – respondeu Lumiére – Se ele quer falar comigo, deixe-o.

O homem não teve escolha senão obedecer. Depois de estarmos sozinhos, afirmei:

– Eu vou ao mundo dos Shinigamis.

– Você não poderia, L – respondeu.

– O quê? Não terei permissão para isso?

Lumiére me olhou atentamente.

– O Mundo dos Arcanjos e o Mundo Shinigami são totalmente opostos. Não se pode transitar entre eles sem sofrer consequências.

– Que tipos de consequências exatamente? – questionei.

– Dispersão, L. Se você ficar lá por muito tempo, sua essência se modificará. Em outras palavras, você deixará de existir. O mesmo acontece com os Shinigamis que tentam vir para cá. Por que acha que eles ainda não invadiram nosso Mundo?

Refleti por um momento. Tinha de admitir que o risco da não-existência não me agradava, mas não tinha alternativa. Se minha intuição estivesse correta, Light não havia aceitado sua morte. Kira retornaria em breve.

– Não me importo – respondi a Lumiére – Aceito o risco. Como faço pra chegar até lá?

Lumiére percebeu que não conseguiria me fazer mudar de ideia, então simplesmente começou a descrever o caminho que teria que percorrer. Não pude deixar de pensar: “E o confronto entre L e Kira recomeça.”.

E dessa vez, ninguém me impediria.

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