sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A criança que nasceu com o sofrimento do mundo


De eras em eras, nascia uma criança especial, portadora de todo o sofrimento do mundo. Entretanto, receber tal criança no seio familiar – ou na sua comunidade de origem – não era uma das tarefas mais fáceis. Graças ao alto grau de dificuldade para lidar com toda a dor carregada por esse indivíduo, ele geralmente era rejeitado e abandonado, e a Morte o carregava, e acumulava esse e todos os outros flagelos vividos pela sociedade para posteriormente depositar tudo em uma nova criança.

E foi assim que em uma cidade extinta e longínqua nasceu o Menino.

Seus pais logo notaram que havia algo errado com ele, pois era um bebê que chorava muito e não importava o que fizessem, continuava a chorar e suspirar em lamentos de cortar o coração. Não demorou para que os vizinhos notassem a estranheza da criança e o quanto sua presença provocava aflição. Os pais do menino, entretanto, desejaram tanto aquela criança e a amaram tanto, que suportavam toda a dor do Menino e devolviam tudo em forma de amor.

Com isso, o bebê foi crescendo até se tornar um garotinho. Ainda ostentava um pesar nunca antes visto na face da Terra, mas a devoção e estima de seus pais arrancavam lasquinhas dessa crosta de amargura que o cobria. Porém, cada vez que ele se tornava um pouco menos infeliz, algo ruim acontecia. Pequenas pragas ou doenças tomavam conta da cidade, e conforme o tempo passava, as pessoas passaram a ver o Menino como uma ameaça.

Em um dos aniversários do Menino, os pais lhe prepararam guloseimas deliciosas e um pequeno bolo, e comemoraram de forma tão bela, que pela primeira vez rolaram, pela face rechonchuda e inocente, gotinhas de felicidade.

Nesse mesmo dia, uma enfermidade catastrófica matou mais da metade das crianças da cidade. Revoltados, os cidadãos se reuniram e invadiram a casa daquela pequena família e tiraram o Menino deles. Após terem feito isso, trancaram todas as entradas e atearam fogo no casebre, para se certificar de que aquele casal nunca mais colocaria no mundo crianças como o Menino.

A criança teve seu corpo coberto por bandagens, de forma que parecia-se com um pequeno casulo – embora ele soubesse que seu destino não seria se tornar livre como uma borboleta. Por trás da faixa, apenas seus olhos grandes e expressivos não estavam cobertos. Mas mesmo que ele não pudesse ver, ainda ouviria os gritos lancinantes de dor de seus pais, enquanto chamavam seu nome, através das chamas que consumiam sua morada. 

A imensa miséria espiritual com a qual estava habituado não era nada comparada ao que sentia com o padecimento de seus pais e a impotência por não poder fazer nada para salvá-los.

Seus olhos, naturalmente dourados, se tornaram de um vermelho tão vivo quanto o das labaredas que lambiam os restos do lugar que um dia chamou de lar. Seu pesar natural se tornou algo pesado e rubro em um misto de animosidade e horror.

As faixas nas quais seu corpo havia sido enrolado se desprenderam em uma explosão e um círculo gigante e paralisante tirou a vida daqueles que o rodeava. E mesmo após isso, a agonia de sua alma continuava e suas lágrimas machucava a todos que se aproximassem. Durante o tempo que vagou pela cidade, apenas morte e sofrimento o rodearam. Até que alguns dias após a morte de seus pais, seu corpo pequeno caiu e a vida passou a fugir-lhe aos poucos. Estava padecendo de inanição.

Vendo-o desmaiado, as poucas pessoas que restaram na cidade cavaram uma cova profunda e jogaram seu corpo lá. Ainda com resquícios de vida em seus olhos, o Menino pode ver e sentir o peso de cada nova pá de terra jogada sobre ele.

Quando a Morte veio lhe buscar, no intuito de completar o ciclo da criança que nasce com todo o sofrimento do mundo, não pode carregar-lhe a alma. O amor verdadeiro que conheceu em vida somado ao hediondo fim de sua alma inocente, aprisionou para sempre a dor naquele pequeno coração. Não podendo cumprir seu papel, a Morte retirou o pequeno corpo, que agora dormia calmamente, e o depositou em uma pirâmide da cidade de Shurima. E, uma vez que teria para sempre o sofrimento do mundo aprisionado em seu ser, a Morte levou dele as lembranças que teve em vida. Mas uma era tão forte, que nem mesmo a morte era capaz de apagar: era voz de seus pais, enquanto morriam, sussurrando seu nome “Amumu…”.


4 comentários:

  1. olá adorei seu blog, e amei o poema muito legal, estou te seguindo me segue de volta bjos horasnoespelho.com

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    1. Olá! Só vi o comentário agora '_'
      Obrigada por ter lido, vou visitar seu blog :D

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  2. Nossa adorei, muito bom mesmo ! Já estou seguindo seu Blog pra não perder nenhum post, viu?! <3
    Beijos,
    #fiquerosa

    Fique Rosa

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    1. Olá! Obrigada. Eu adorei escrever esse conto. Vou visitar seu blog :D

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